José Abá Ubu de Anchieta, um poeta feito professor

José Abá Ubu de Anchieta, um poeta feito professor

José de Anchieta veio para essas terras trazendo na bagagem do coração o desafio do anúncio do Evangelho a todos os povos. Mesmo encurvado pela saúde frágil, desde sua juventude, viu no meio do caminho dessa aventura que, antes de dar e ensinar, recebia e era ensinado numa riqueza incalculável. Com Anchieta, façamos a reconstrução e defesa dessa riqueza!

Autores: André Luiz Moreira e Wands Salvador Pessin


É entre duas quedas que nasce a figura de José de Anchieta professor.

A primeira, no naufrágio em Abrolhos, em 21 de novembro de 1553. A segunda queda, a de seu corpo, levado de Rerigtiba a Vitória, com sua morte em 09 de junho de 1597.

Num primeiro ato, navegando-se contra ourú, aquele vento da conversão real que traspassou o jovem José de Anchieta, navegado até o fim em Rerigtiba, podemos imaginar, como em rendição de amor, acabou tornado aluno.

Numa espécie de queda, sob a imagem de ytu, Anchieta viu a mais alta e forte luz no kûarasy do meio-dia rerigtibano. Se, quando pisou pela primeira vez o chão tupinambá, imaginou-se naturalmente cheio de coisas novas a dizer, deixou-se abalar pelas grandes belas novidades do meio do caminho, justamente aquelas que fazem a meia volta, sem a qual não existem recomeços.

Naufragado, foi elevado pela compaixão ofuscante dos Abrolhos!

Indigenamente acolhido nesses chãos, depois de carregado por ourú sobre as águas, acaba virado, Abá ubu, um indígena caído. É a segunda e mais elevada queda.

Deixando-se naufragar e caído, admiravelmente não afundou!

Levado ao chão de areias por ourú, deixou-se ao ponto de ser subido pelo sopro novo dos braços de uma conversão que o retirou do solo e o colocou sobre os ombros de gigantes.

Tupinamente atravessado, ganhou vidas, nascendo novamente. Agora, ao contrário da chegada, o início de um fim dado, o espírito veio do alto Tupã, e como um trovão, numa aterrorizante falta, de medo, rumo às sombras gloriosas de sua mãe refúgio, Tupansy, a verdadeira segurança de um povo contra todo abandono!

De um fim progressivo, de fora e sem memória, mudado num originário e mais elevado – isto é um corpo inversamente convertido -, a meta é transvalorada em recomeços, numa nova Galileia.

José de Anchieta é feito metáfora, e assim, muda misericórdia em compaixão, inimizade em alternatividade. De uma alternatividade a nóspara uma alternatividade para nós. São duas, mesmas, as paradas, como são duas as quedas.

Mas, para nós quem?

Se aquela possibilidade que torce a comida, cozida, em verdadeira carne, incruenta e agora apenas semente que cai semeada, que faz da sepultura corpo no qual é descido ao chão de um túmulo novo, e que, das terras sem males faz abrir chãos novos, então, se for isso mesmo, uma morte nova é possível, uma sem quedas definitivas, através da qual todos estão incluídos. Esse nós-íandê, faz misteriosamente o corpo ser ainda abraçado no nome próprio que fica na memória de um povo, aquela que realmente permite o próprio abraço de amor.

Assim incorporado, como na conversão que já havia feito em sua primeira queda pra cima, José de Anchieta, o professo, agora é Abá Ubu, o servo professor, feito luz pelos olhares de luzes ainda maiores.

Um maravilhoso intercâmbio, um dentre outros, é verdade, embora ainda não capoeiristicamente equilibrado, é também verdade. Mas isso parece coisa dos tempos, em suas irremediáveis contrações, as mesmas que permitem os gemidos às escondidas, em suas tocas, nos desencontros chocantes entre ytus, plenos de uma faísca de promessa de que ainda existem muitas outras coisas novas a dizer.

Assim retornamos ao Abá Ubu professor, não deixado caído, ao ponto de podermos dizer, hoje ainda juntos, urgentemente num por enquanto, tendo ao chão o túmulo do Apóstolo do Brasil, “Que o pecado nativo / É simplesmente estar vivo / É querer respirar”.

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