José de Anchieta, um poeta feito brasileiro

José de Anchieta, um poeta feito brasileiro

José de Anchieta é sinal de uma reconstrução monumental. Foi a partir de um forte choque entre culturas que Anchieta apontou para um alargamento que tornou possível a imagem de que tantos povos constituem o Brasil, a começar pelas nações indígenas, com sua imensa e valiosa pluralidade na vocação do cuidado da Casa Comum.


José de Anchieta, um poeta feito brasileiro.

Autores: André Luiz Moreira e Wands Salvador Pessin

A expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759 significou o exílio, pelo poder colonial, de um projeto de Brasil justamente plural. Como uma obra de difícil arte, sua configuração seria a de uma união em múltiplas uniões.

José de Anchieta, falecido fazia quase duzentos anos (1597), e que fez de sua vida uma obra de arte, também foi, postumamente, expulso do Brasil.

Com essa expulsão, desterrava-se a utopia realista daquela união em múltiplos, imaginando-se que isso significaria sua destruição.

A obra de Anchieta, sepultada no vivo chão tupi, teve que ser levada às pressas para fora, de seus ossos à gramática da língua mais falada na costa do Brasil, à medida que a voz da razão solo do Marquês de Pombal era portuguesmente ditada.

Vivo, Anchieta não fez o caminho da volta ao Velho mundo. Já o corpo de sua monumental obra, mesmo já sepultado, foi obrigado a deixar o Novo mundo. Vê-se nisso mesmo como o colonialismo é a gestão da morte, ontem e hoje. Sempre.

De sua obra vivente, tentou-se fazer um objeto, sem vida, feito periférico, atrasado, arcaico, aquilo que deveria ser exterminado. E para reforçar esse mecanismo de apagamento, não apenas tentaram fazê-lo um objeto morto. A pretensão era ainda maior: retirar-lhe o próprio corpo! Ossos, livros, paredes e almas tupis deveriam ser esquecidos, cancelados da memória. Tudo que corporificava o Brasil de Brasis, a ganância colonialista não admitiria mais à existência, sejam ossos ou palavras. Qualquer sinal, nome ou figura, deveria ser abatido.

E como não existe apagamento sem que antes haja sequestro, nesse exílio póstumo, também a figura de José de Anchieta acaba raptada.

Ao contrário do José de Anchieta que se fez cativo dos Tamoios em 1563, o rapto de 1759, como toda tentativa de apagamento, buscava revisar a história a partir da lógica da brutalidade do mais forte. A proibição do tupi um ano antes, em 1758, pela doutrina pombalista da planificação, representou essa lógica perversa.

Não se submetendo ao cale-se, Anchieta e seus companheiros assumiram em si o desterro.

Mas o Brasil de Brasis ainda vive em seu corpo e sua reconstrução passa pela vivificação daqueles ossos, gramáticas e palavras exiladas. Suas brasas ainda estão no calor daquela mesma resistência, sem medo de qualquer forma de exílio.

 

Como em Anchieta, esse Brasil inacabado poderia sim ser reconstruído, mas somente se for a partir dessa mesma alma pluralista.

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