No dia 15 de agosto de 1590, São José de Anchieta encena o Auto da Assunção, quando levaram uma imagem a Rerigtibá. O auto foi escrito para a festa da consagração da igreja de Nossa Senhora da Assunção, cuja construção começara em 15 de agosto de 1579, quando o próprio Anchieta fundou a missão jesuíta em Reritiba. Será esse o lugar que Anchieta vai viver seus últimos anos e morrerá em 1597, no quarto anexo à essa igreja que hoje integra o conjunto arquitetônico do Santuário Nacional de São José de Anchieta, localizado no município que hoje leva o seu nome, Anchieta, na região sul do estado do Espírito Santo, a apenas 90 km da capital Vitória.
O Auto da Assunção, a dedicação da igreja a Nossa Senhora da Assunção e a devoção mariana de São José de Anchieta são temas intrinsecamente ligados. E o Santuário Nacional de São José de Anchieta foi tecido com essa suave complexidade anchietana.
Anchieta entregou aos indígenas o que trazia em seu coração e lhe era tão valioso: espelhou sementes de amor à Santíssima Virgem Maria e encontrou ressonância nas culturas indígenas destas terras.
O reitor do Santuário Nacional de São José de Anchieta, padre Nilson Marostica, destaca uma peculiaridade do Apóstolo do Brasil: “São José de Anchieta não entregava pronto”. Em outras palavras “Fazia toda uma catequese para introduzir o orago (imagem do padroeiro) na igreja. Era a introdução de um cristianismo consciente. Anchieta fala aos indígenas, explica quem é a mãe de Deus. Descreve quem é a Virgem Maria, porque é chamada Assunção”.
Apesar das limitações e até mesmo da distância do tempo, podemos ter acesso a toda a genialidade de Anchieta. “Essa é a beleza, a genialidade. Não era o rito pelo rito. Ele fazia uma boa formação, espírito próprio da Companhia: fazer com excelência”, conclui o reitor.
Anchieta deixou vestígios descritivos da igreja no auto:
Esta igreja nos arrasa
com pintura que enfeitiça
por esta alma, que se abrasa
“Anchieta fala da própria igreja e nas obras de restauro descobrimos, pela prospecção dos detalhes, como a pintura no altar e a flor de lis no arco da igreja”, explica o reitor.
São José de Anchieta deixou marcas por todo o Brasil e a possibilidade de encontra-las e redescobri-las é sempre marcante. Foi assim com o padre jesuíta Felipe de Assunção Soriano, que após uma experiência pastoral, na atual Paróquia Nossa Senhora da Assunção, realizou uma dissertação de mestrado sobre o Auto da Assunção, o qual considera uma obra madura do teatro anchietano.
Conversamos com o Padre Soriano sobre a pesquisa que realizou, leia um trecho da entrevista.
Entrevista
O Auto da Assunção trilha um caminho de encontro, entre povos e culturas. E no caminho do cortejo com a imagem, encontra-se o mal que é expulso, sem violência. Em que medida o Auto da Assunção revela traços importantes da missão de São José de Anchieta nestas terras?
No Auto da Assunção (1590) Maria-Tupansy colabora diretamente para a superação dos conflitos internos e a construção de uma cultura de paz.
Como encontramos na correspondência da Companhia, eram às índias mais velhas (esposas do principal) que os índios recorriam para saber se deveriam guerrear com os outros povos ou não (Matriarcado).
Maria-Tupansy é colocada na aldeia nessa posição, como esposa do Principal e Mãe de Jesus, sendo ponto de convergência para todas as nações, filha do povo tupi e Senhora da aldeia.
É diante dela que os líderes das nações tupis reunidos para o festim prometeram mudar de vida, deixar os velhos vícios e superar as guerras entre si. É na fala desses líderes tupis que constatamos essas aspirações que coloca Maria-Tupansy em chave pedagógica, pois ela é nossa educadora, a tutora da nossa gente. Segundo a arquitetura do espetáculo, ao colocar um índio do sul e outro do norte que vão ao festim, José de Anchieta convoca todos os índios do Brasil a Rerigtibá.
Assim, José de Anchieta recoloca o feminino no centro, elemento fundamental para a organização da vida social nas aldeias, na medida em que nos oferece seu melhor presente.
Falar do Auto da Assunção é também falar do Santuário Nacional de São José de Anchieta do qual faz parte a igreja de Nossa Senhora da Assunção, a igreja cuja dedicação recebeu esse auto de presente. Quão singular é a experiência de reconhecer nesse espaço, inclusive preservado, o próprio cenário no qual Anchieta escreveu e encenou o Auto?
Como é comum nos seus autos indigenistas, a aldeia toda é o palco, pois a Virgem chega de barco ao porto e é transladada para a igreja da missão. Conforme os mitos que temos sobre Tupã, sabemos que ele mora com sua mãe… José de Anchieta dedicará a Igreja da missão a Virgem Maria colocando Jesus-Tupã feito menino no coração da aldeia. Como o rito de acolhida nas aldeias tupis converge à casa do principal, aqui, também, o Auto da Assunção (1590) converge para a Igreja da missão. Conforme a chave do matriarcado tupi é sempre com Maria-Tupansy que os índios devem tratar quando vão à casa do Principal, pois é ela quem os recebe e aponta seu Filho.
Ao entrar na Igreja, no Auto da Assunção (1590), os líderes tupis destacam as pinturas murais, o tamanho da igreja e sua beleza, sinais do poderio de Jesus-Tupã. Dessa forma, apresenta-se não só Maria e seu Filho, mas a Igreja como oca de Deus com os homens (Tupãoca = Igreja).
Dessa forma, a igreja passa a somar com a iconografia do espetáculo, pois é apresentada como imagem ou estância de Deus e sinal de sua proximidade. Nesse sentido, temos aqui uma primeira elaboração das relações profundas que marcaram a construção do papel mariano quando se articulam na catequese tupi cristologia, mariologia e eclesiologia.
Como o espetáculo caminha ao Santuário Nacional como apoteose, assim também deseja José de Anchieta que descanse o nosso coração na contemplação do rosto lindo da Maria. Pois é seu desejo que essa igreja seja ponte de convergência para todas as nações do Brasil, é, imagem ou habitação de Deus com o seu povo.
Como surgiu o interesse para o desenvolvimento da pesquisa? O senhor já foi pároco desta igreja. Em que medida essa experiência pastoral influenciou seus estudos? E o inverso também, como conhecer mais Tupansy o ajudou na missão como padre jesuíta?
Como foi desejo dos meus superiores, fui feito pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção em 17 de março de 2016, na qual se encontra a igreja da antiga missão jesuítica, atual Santuário Nacional São José de Anchieta. E, assumido este ofício, levamos a cabo a preparação das comemorações dos 260 anos da fundação da Paróquia, e a celebração dos 90 Anos do retorno da Companhia de Jesus às terras de Anchieta, ambas celebradas em 2018. Neste contexto, revisitar o fundador da missão jesuítica na aldeia de Rerigtibá constituiu um passo natural em todo esse processo.
O meu encantamento com essa obra se deu nesse período, pois estava diante de uma pérola que registra de maneira original as raízes profundas de sua devoção. As Ilhas Canárias, berço de José de Anchieta, foi como o Brasil terra recortada pela dureza da colonização, mas marcada por uma forte devoção mariana, pois é a Virgem quem conquista seu povo ao Evangelho.
O lugar central que a devoção à Virgem Maria atingiu na sua vida e obra é indubitável. A sua devoção é tão evidente que facilmente encontramos várias missões fundadas por ele consagradas à Virgem Maria.
Como essa missão faz eco a sua terra natal (Ilhas Canárias), é nessa aldeia que ele deixará a sua Virgem de devoção, pois é Maria quem atualiza a esperança dos povos com seu Magnificat. Como a Virgem foi o instrumento de conversão do seu povo, aqui José de Anchieta apresenta Maria-Tupansy quando diz no Auto da Assunção (1590): “Rerigtibá, meu país”.